Tinta cor de sangue

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Tinta cor de sangue

Mensagem por Ana Arisu em Qua Ago 10 2011, 00:29

Ok, escrevi uma fanfic para o concurso de novo. Dessa vez me inspirei na "Trilogia da Gaiola", principalmente em "Yaneura no Shoujo". Ela não tem contra-indicações novamente ~ Todo mundo que gostar pode ler ~
E SIM eu sou obcecada pela cor vermelha... *confessa*
Então, espero que gostem; escrevi como presente para o fórum!!! Yay *w*
"Danke Schöne!!" ~

Spoiler:
Tinta cor de sangue

Sabe-se que era uma jovem muito bela e calada, uma flor imprescindível que desabrochara num lugar vazio.

Crescera aprisionada em um quarto escuro, dominado pelas trevas, como se uma tinta negra pintasse o teto, as paredes e o chão do lugar. O brilho pálido da lua era a única luz que chegava até ela, com sua inconstância prateada, através da única janela do aposento, iluminando o pequeno sótão e revelando uma ou duas cores sem graça em meio ao pontilhado da poeira e de toda aquela escuridão.

Ela via o mundo através da janela. E através do espelho de lágrimas que marejavam os seus olhos. O mundo lá fora era multicolorido, vivaz, inigualável, ainda que cheio de defeitos. Mas quanto mais imperfeito ele era, mas ela o queria! Porque crescera aprisionada dentro de um quarto escuro, tudo o que ela mais queria era ter asas para voar até o mundo lá fora, aquele mundo que por tanto tempo ela via de longe. O mundo que lhe fora negado desde que nascera.

Dentro do quarto, sozinha e infeliz, tudo o que possuía eram sonhos, que tomavam formas através de um caderno de desenhos. Quando a luz da lua permitia enxergar além da escuridão, ela usava seus únicos brinquedos, três tintas de três cores diferentes: as únicas cores que ela conhecia, mas que para ela não possuíam nome.

Era com essas três tintas, no papel liso e branco, que ela criava o seu próprio mundo: um mundo de três cores, tingido pelo espectro dos seus mais profundos desejos. Lá, ela era a princesa de um reino amaldiçoado, ou heroína de uma história perdida no passado, ela era santa e pecadora, deus e demônio, mortal e imortal...

Mas assim que uma história terminava e ela virava a folha do caderno de desenhos, voltava a ser a mesma menina desgraçada aprisionada num quarto escuro. Então, ela se debruçava da janela e via o mundo lá fora... O seu maior desejo! Ah! Ela daria tudo para estar naquele mundo!

Por quê? Ela se perguntava dia após dia, por que lhe fora uma vida no prisma multicor daquele mundo tão bonito?

E o homem cruel vinha responder a sua pergunta. Um homem louco, sem cor alguma, mas que exalava uma aura ameaçadora, como se o seu contorno estivesse borrado da mais escura tinta. Com as fortes mãos ele arrombava a porta e procurava a menina, que se encolhia num canto. Contra ela, despejava as mais insanas injúrias, esfolava-a com as mais duras surras, e em seguida a deixava como uma boneca quebrada esquecida no sótão.

E a poeira do quarto escuro manchava suas lágrimas, as lágrimas manchavam seus desenhos e os sonhos se dispersavam como aquarela molhada...

Se Deus existia, por que era tão mau com ela? Por que deixava que a tratassem daquele jeito? Quando ela não havia feito nada na vida a não ser desenhar, qual pecado ela cometera para merecer o eterno castigo pelo qual passava?

Naquela noite escura, escura, sem um único brilho sequer – pois a lua não surgira nos céus – o homem louco apareceu possesso, exalando um fétido cheiro de álcool. Arrombou aos gritos a porta do quarto e procurou a menina, sua boneca quebrada, tateando no escuro enraivecidamente. Logo que achou-a escondida junto à parede, agarrada ao seu caderno de desenhos, puxou-a pelos cabelos e arrastou-a miseravelmente pelo chão, com se ela fosse uma pequena caça subjugada. Maltratara-a como nunca antes, surrando-lhe com tanto ódio, com tanta raiva e loucura, que o seu corpo pequeno e frágil não fora capaz de agüentar tamanha brutalidade. Quando o louco enfim a deixara, bramindo impropérios e chamando a menina de nomes horríveis, a pobre chorava pelas inúmeras feridas que lhe haviam infringido em todo o corpo. Agarrou com as forças que lhe restaram o seu caderno de desenhos, tentando pensar numa nova história, uma história onde ela se vingasse de todos, do homem cruel que lhe batia, das crianças felizes que brincavam lá fora, das famílias unidas, dos casais que se amavam... De todos e de cada um! Todos que tivessem a felicidade que, trancada naquele quarto, ela seria incapaz de possuir!

Em sua história, todos a amariam, todos a desejariam, todos se curvariam perante ela...!

E uma gota de sangue manchou o branco papel.

Escorrera de uma de suas inúmeras feridas, uma gota tão líquida, tão intensa, de cor tão hipnótica... Os olhos tristes e chorosos da menina foram imediatamente enfeitiçados por aquela cor vívida que manchara obscuramente o imaculado papel com seu poder sanguíneo, quase mágico. Que nome deveria ter aquela cor tão bela? Como se chamaria aquela cor tão brilhante? Sentia-a tão intensa sobre o papel, tão poderosa, que com ela poderia ser capaz de desenhar o mundo perfeito com que sempre sonhara! Quase que imediatamente arrastou seus dedos pelo papel, moldando a gota de acordo com o anseio do coração...

Mal sabia a miserável menina que criava a sua opera prima como o dom dado por Deus e a malícia dada pelo Diabo.

E o líquido tinto e espesso, de matiz intenso, foi espalhando as formas no papel liso e branco, até que todo ele estivesse coberta a cor do sangue. Uma femme fatale exibia sua altivez e charme na tela pintada, uma mulher que inspirava tentação e volúpia, como a serpente que incitara o pecado no Paraíso: a pele pálida como a luz da Lua, olhos brilhantes como as estrelas do Universo, lábios carmesins como as pétalas das flores. Um corpo nascido do pecado para o pecado, com o sagrado líquido vermelho que pulsava dentro das finas veias azuis, alimentando a beleza magnânima da luxúria. Era altiva, cruel, sedutora e poderosa, podia controlar o mundo em suas delicadas mãos, ao seu bel prazer.

Por ter aquela cor, ela era tão poderosa. A cor do sangue era toda ela e ela era o sangue. E porque nascera de sangue e de desejos, era capaz de tudo o quanto há de mais macabro! Uma pintura emoldurada por vicissitudes...

Então, uma noite o louco cruel voltara àquele quarto, procurando a sua boneca quebrada para despejar nela toda a sua raiva e ira. Transpassou os flocos de poeira que dançavam pelo ar, tateou na semi-escuridão o alvo de sua insanidade, mas de repente se deparara com um único diáfano raio de luz prateada – da lua cheia que principiava a iluminar os céus escuros – que incidia como holofote sobre a cruel femme em sua pose altiva, seu sorriso de esgar e sua aura demoníaca. Nem mesmo as trevas ousavam esconder aquela imoral madonna. Mortificado e, pela primeira vez em tanto tempo, lúcido, o homem louco percebeu a tamanha perdição encerrada naquele quarto e atentou contra ela: destruiria aquela blasfêmia com suas próprias mãos!

“O que há de errado, papai? Deixe-me desenhar a felicidade para o senhor...”

Ah! Aquela cor tão bela! Aquela tinta cor de sangue...!

***

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